Resultado da biópsia e mais comemoração

Eu disse que voltaria com novidades e cá estou eu. Ontem foi o dia de pegar o resultado da biópsia no Hospital Santo Amaro. Quando liguei pra lá no início da semana, me disseram que poderia buscar o documento a partir das 16h. Eis que chegou o dia 29. Telefonei por volta das 09h30 só pra confirmar o horário e me disseram que já estava pronto para entrega. Uhu! Incorporei o The Flash (sdds anos 90) e cheguei ao setor de entrega em pouco mais de 40 minutos.

Vamos deixar a imagem falar mais que mil palavras?

Clica que aumenta

Huuum… certo. Ninguém tem a obrigação de entender o que está escrito, então vamos ativar a tecla SAP.

O tumor realmente era maligno, mas menor do que aparecia para nós nos exames. Por lá, 1cm. Na real, 0,6 cm. É uma diferença pequena, mas que é suficiente para rebaixar o tal temido carcinoma papilífero devastador e malvado a um microcarcinoma papilífero imbecilzinho de nada (agora, né? que já tá fora de mim, hehehe).

“Tá, Savana. O nódulo era maligno. Qual é a boa notícia?”. A boa notícia é que ele era menor, ora. E que não tem sinal de metástase e nem de outros tumores em formação, já que a biópsia diz que não há alterações no restante da glândula. A notícia nem sempre precisa ser grandiosa pra ser boa.

Bem, temos que considerar que pelo visto eu tinha uma mini-tireoide, né? Enquanto as outras têm entre 15g e 30g, a minha pesava 11g (menos que uma latinha de Vick) e o lobo onde o tumor morava tinha 3,4 cm no maior lado. Tá proporcional, né?

Tireoide slim: mais leve que uma latinha de Vick

Ansiosa e tudo-pra-ontem que sou, liguei pro consultório do Dr. Augusto e perguntei pra Maria se dava pra mostrar o laudo ainda naquela manhã. Sinal verde e lá vamos nós! 

Fui encaminhada para uma médica nuclear, que vai avaliar a necessidade de entrar com o tratamento complementar: a iodoterapia. Se não tiver que fazer, bom. Se for necessário, não tem problema. Até terça! ;)

Como foi? Como foi?

Ma oêee! Tô de volta! Desta vez com um post que promete ser looongo. Para facilitar a vida dos meus queridos leitores (cof, cof!), farei uma divisão por tópicos.

1. A cirurgia e o pós-operatório inicial

2. João

3. O Hospital Santo Amaro – onde NÃO se internar

4. O pós-operatório da tireoidectomia

5. Bibliograf… ops! Hehehe… foi mal!

Senta que lá vem história!

1. A cirurgia e o pós-operatório imediato

Para todo mundo que perguntava se eu estava com medo, eu dizia: “nem com medo e nem nervosa. Estou ansiosa.” E era verdade… pelo menos até entrar no centro cirúrgico. Eu continuava sem sentir medo, mas meu corpo, tremendo muito, dizia o contrário. Eu dizia que não sabia se era de frio ou por conta do nervosismo, mas hoje sei que era a segunda opção, afinal, a temperatura não estava tãaao baixa assim a ponto de fazer a tremedeira ser visível e constante. O combinado era tomar um tranquilizante antes dessa etapa, mas não deu tempo por conta da “ótima organização” (só que mega-não) do Hospital Santo Amaro.

O anestesista encontrou minha veia e começou a aplicar a medicação. Lembro dele conversando comigo, perguntando da minha asma e falando que tinha um pó de espinha de peixe que era muito b….APAGUEI! Na verdade, não sei se apaguei, mas só lembro até aí. Não tive nem aquela sensação do sono chegando (ou, se tive, não tive consciência). Foi como se eu fechasse os olhos e abrisse três horas depois, com João dizendo “oi, oi, já acabou”.

Anestesia geral – como eu achava que era:
anestesia 2Anestesia geral – como é:

anestesia

O pós-operatório imediato – acordei da anestesia e não conseguia abrir os olhos direito. Era como se tivesse com muito sono e duas barras de 5kg em cada pálpebra. Também fiquei com tontura e bem enjoada, mas passou depois de “fazer a Trixie em ‘O Pestinha 2’”.

Quem lembra da cena do parque?

Quem lembra da cena do parque? Eeeugh!

Chegando ao quarto, não conseguia falar direito em virtude da dor na garganta causada pelo entubamento. Minha voz foi melhorando aos poucos e de manhã já conseguia conversar quase normalmente, ou seja: nada de rouquidão. UhU!

A dor de garganta me acompanhou durante cinco dias. Era difícil comer, mas eu comia mesmo assim (claro, né?). O cirurgião, Dr. Augusto Mendes, indicou o consumo de derivados do leite e recomendou que tomasse cálcio. Assim o fiz por pouco mais de uma semana. Já a Novalgina, indicada para quando sentisse dores, suspendi no domingo (3 dias após a cirurgia) pois já não sentia mais nenhum incômodo.

Os maiores inconvenientes foram: muito sono nos três primeiros dias, quando eu dormi mais de 10h por noite e tirei sonequinhas ao longo do dia e um inchaço que me acompanhou por mais uns quatro ou cinco dias.

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Posso dizer que, além de estar em ótimas mãos, tive sorte, né? : )

2. João

Se não me engano, conheci João em 1999, quando morei em Santo Amaro. Só pra dar uma noção da época: ele era o menino que andava de BMX e aprendia a tocar Renato Russo no violão e eu fazia parte de um grupo cover de Spice Girls. #velhice

Na época, tinha 13 anos e a vida era aquela farra de não ter muitas preocupações e ficar “na porta” dos amigos. A porta em questão era a da casa dele. Já ao grupo de amigos, poderíamos incluir Alice e Marcos (os irmãos) e Tia Hermínia, que entrava na farra com a gente, e Seu Zezão, que tava sempre por ali pra dar uma regulada na nossa bagunça. Foi um período muito bom, mas o tempo fez o que quase sempre costuma fazer: levou cada um a viver suas vidas e a fazer novas amizades, com novos interesses e assuntos em comum.

O reencontro aconteceu em 2012 e não perdemos mais o contato. Melhor ainda: a amizade se fortaleceu e ganhou novos personagens – Alex, meu namorado, e Larissa, namorada dele.

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Até aqui é uma história legal, né? Mas ela fica ainda melhor.

Desde o diagnóstico de carcinoma papilífero, João conversou muito comigo sobre esse assunto específico: tirou minhas dúvidas, procurou respostas e trouxe exemplos de como o câncer em questão é curável. O ponto alto foi quando ele se ofereceu para acompanhar a cirurgia. Preciso dizer o quanto minha mãe (que já tinha pensado nessa questão) ficou feliz?

Chegou o dia da cirurgia e João também levou um chá de cadeira (para entender sobre esse assunto, leia o tópico 3). Alex chegou em seguida e ficamos os cinco (Eu, minha mãe, meu pai e eles dois) na recepção. Durante este período, ele nos explicou um monte de coisas sobre o procedimento, anestesia geral e outras tantas coisas que ninguém conta para nós. Foi uma orientação muito boa e eu pude subir para a cirurgia já sabendo o que me esperava.

É mágica? Teletransporte? Não sei, só sei que quando cheguei ao centro cirúrgico ele apareceu logo depois para avisar que estava ali, pronto para ser os olhos da minha família naquela sala. Só lembro até aí, mas soube que o tudo foi narrado por ele via SMS. Ao invés de, sei lá, três horas de apreensão, minha família teve três horas de informação. Não tenho palavras para agradecê-lo por essa atitude e ele já sabe que seremos gratos forever por isso, mas não custa deixar registrado. = )

3. O Hospital Santo Amaro – onde NÃO se internar

O Hospital Santo Amaro é integrante da Fundação José Silveira, o que traz boas referências para a instituição. Não está entre os maiores da cidade, mas não deixa de ser uma boa opção. Bem, só se for para os outros. Se eu tivesse que dar uma nota de 0 a 10, daria 2. Acham que estou sendo muito má ou exigente demais? Então acompanhem a minha experiência e digam se não tenho razão.

Para começo de conversa, o Hospital não tem estacionamento. Sendo assim, ir para lá de carro só se você carregar cilindros de paciência no porta-malas para encontrar uma vaga no meio daquela confusão. Alternativa: ir de táxi ou deixar o carro em um dos dois estacionamentos próximos ao Campo Santo e andar um trecho a pé (trecho este que inclui duas ladeiras).

Não posso negar que o processo de pré-internamento e marcação de consulta com o anestesista foi bem rápido e organizado, mas para por aí.

No dia da cirurgia, o procedimento estava marcado para 15h. Pediram-me para chegar por volta das 11h30 para dar início ao processo de admissão de paciente e internamento. Foi o que fizemos. No horário combinado, lá estávamos eu, minha mãe e meu pai. Documentos entregues e espera, muita espera e nenhum posicionamento por parte do hospital. Em certo momento, me chamaram para “acertar as contas”. Isso pq meu plano é enfermaria, mas optei pagar R$ 300,00, referentes à três diárias, para ficar acomodada no quarto e ter direito a um acompanhante. Esse pacote de diárias começa a contar a partir das 10h e não pode ser fracionado. Se for preciso ficar menos tempo no hospital, o valor excedente é reembolsado em até 07 dias*.

Já passava das 14h e, teoricamente, minha diária já tinha começado, mas tive que continuar na sala de espera até 16h40 devido à falta de leitos. Durante a entrevista com o anestesista, ele falou que me dariam um tranquilizante antes da ida para o centro cirúrgico, para que eu chegasse por lá mais sossegada. Vocês acham que isso aconteceu? Pois é… não. Segundo a enfermeira, a equipe já estava pronta e não daria tempo do medicamento fazer o efeito esperado. Então vamos recapitular: cheguei 11h30, subi para a enfermaria às 16h40 só para tomar um banho e colocar a roupa do hospital. Depois daí, fui direto pro Centro Cirúrgico. Desorganização pouca no ** dos outros é refresco, né? #provérbios #revoltz

E tudo isso em jejum total. Sem comida desde a meia-noite e sem água desde 09h da manhã. #mariadobairro #sofredora

As enfermeiras da noite/madrugada merecem uns parágrafos só delas. Já de volta da cirurgia, veio uma medir minha pressão. Meu pai, que tem pressão alta, perguntou se ela também poderia medir a dele e ela respondeu de maneira ríspida que era proibido. Tá certo, realmente é muito complexo, demorado e custoso medir a pressão de alguém. #sóquenão

Segundo ponto: durante a noite, elas entravam no quarto feito um furacão, fazendo o maior barulho, sem o menor cuidado ou respeito por quem está se recuperando e pelo acompanhante que está ali em um sofá-cama nada confortável. Imagine aí: você está dormindo no silêncio. De repente, o som de uma porta sendo aberta com força e batendo na parede, seguido por uma corrente de ar e o barulho de passos e coisas trepidando na bandeijinha de metal que elas trazem. A pessoa acorda no susto. Agora imaginem isso 6 vezes na noite. É de lascar!  Às vezes eu até achava que elas estavam revoltadas por eu estar dormindo e elas não. Muitos partos são feitos no Hospital Santo Amaro e ficamos nos perguntando se elas também entravam daquela forma no quarto das mulheres com bebês. Pra terminar: em uma dessas visitas da enfermeira, minha mãe perguntou qual medicamento eu iria receber. A resposta: “eu vou dizer à paciente”.  Eu tava meio sonolenta, meio grogue e era bem capaz d’eu não entender o que ela ia dizer. Custava dar a informação? Pra mim, essa foi a pior parte.

Vou pular a parte do jantar que só chegou ao quarto por volta da meia-noite, assim como a do desjejum sem graça e a do lanche com suco de manga sabor água. O almoço foi a melhor parte: tinha sabor e tinha sorvete de coco na sobremesa.

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No fim da manhã, Dr. Augusto passou por lá para dar uma olhada, fazer o curativo, tirar o dreno e me dar alta (eba!). Enquanto me trocava para ir embora, o curativo do dreno começou a ficar vermelho, vermelho, vermelho. Minha mãe foi chamar a enfermeira uma vez. Esperamos e nada. Foi chamar de novo. Mais espera. Só na terceira vez é que veio alguém e fez um novo curativo. Quer dizer, né… ainda bem que não tava morrendo.

*- Talvez eu deva aumentar a nota do Hospital. Só me cobraram uma diária, o que é justo se formos considerar que passei menos de 24h no quarto, mas vai de encontro ao que está estabelecido no panfleto deles, que diz que as diárias começam às 10h. Faz 15 dias que fui operada, mas ainda não fizeram o reembolso. Vamos aguardar.

4. Pós-operatório da tireoidectomia

Já em casa, era hora de me acostumar à nova rotina. Me apossei do SuavEncosto de minha irmã e foi com ele que dormi na primeira noite fora do hospital. Na segunda, optei pelo travesseiro. Na terceira, já dormia de lado, mas com outro travesseiro servindo de apoio para o braço, de forma a não girar demais o tronco. Hoje, 15 dias depois, ainda fico com medo de dormir de bruços.

Pra tomar banho, tentei não molhar o curativo da cirurgia e do dreno, mas não teve jeito e tirei os dois na segunda, mas sempre tentando manter longe do sol e protegido com uma gaze. Foi só aí que pude ver como a região tinha ficado. (Atenção: desça rápido e pule essa parte se vc tem estômago fraco ou “ginge”). O corte foi feito bem na dobrinha do pescoço e promete ficar bem discreto. Palmas para Dr. Augusto! :)

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Foto 01 – após 04 dias
Foto 02 – após 08 dias

Na terça-feira, contrariando as indicações de repouso, fui pro bar! Mas calma! Nada de farra, bebidas alcoólicas ou aqueles alimentos que – crendice ou não – dificultam a cicatrização. Foi rapidinho, só pra comemorar. E haja comemoração na minha família, viu! Do dia 15 de agosto pra cá, foram umas quatro ou cinco (não é exagero).

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Na sexta-feira, oito dias após a cirurgia, fui ao hospital para tirar os pontos e fazer um novo curativo. Suava frio só em pensar nisso. Cheguei no consultório e quando pensei que estava só começando, já tinha terminado. É muito rápido e a área perde um pouco da sensibilidade (temporariamente, acredito), ou seja: não precisa ter medo. Foi recomendando manter o curativo por mais uma semana, pois a compressão ajuda no processo de cicatrização.

Hoje, dia 29, tenho uma vida quase normal. Não carrego peso e nem tenho feito exercícios, mas já dirigi “daqui até ali”. Percorri pequenas distâncias pra evitar forçar o pescoço para os lados e fazer movimentos bruscos. Tô meio Robocop/Vera Fischer nesse sentido, mas mais por medo e precaução, não por dor. E chega né? Vamos encerrar esse post por aqui que amanhã tem mais! ;)

Eu, o INSS e o chefe do Sr. Incrível

chefe-sr-incrivel
Na época em que descobri o carcinoma papilífero, tinha duas possibilidades: receber o seguro desemprego ou o auxílio-doença. A primeira opção era mais cômoda, afinal, é um direito garantido e relativamente livre de burocracias. Conseguir o auxílio-doença daria mais trabalho, pois é preciso agendar horário, ir até um posto da Previdência Social, passar pela perícia e apresentar uma série de exames e um relatório médico. Quando a pessoa tem a “sorte” de estar desempregada e doente ao mesmo tempo, pode optar pelo benefício mais vantajoso e, no meu caso, era o segundo.

[em busca de mais informações sobre o auxílio-doença? Clique AQUI]

Reuni os documentos necessários e rumei para a agência que fica em Brotas. Vesti o meu melhor sorriso e usei todo o meu repertório da boa educação (“bom dia, tudo bem?”, “por favor”, “com licença”, “desculpe incomodar”) para ver se angariava a simpatia da galera, mas não teve jeito. A cada informação solicitada ou todas as vezes em que precisei lidar com alguém, tinha uma resposta burocrática/ríspida do outro lado.

[Pausa para reflexão] Você já esteve em uma agência da Previdência Social? Eu nunca tinha sequer passado pela calçada e me espantei com o que vi. Não vou me alongar falando da falta de cortesia da maioria dos funcionários e do sucateamento da estrutura. O que chamou mesmo a atenção foi ver idosos e pessoas com sérias dificuldades de locomoção tendo o mesmo atendimento que eu – que consigo andar e falar de maneira independente. Não tem uma fila de prioridade nem nada. É por ordem de chegada e todo mundo no mesmo balaio. [fim]

Passei por três perícias médicas em pouco mais de dois meses. Na primeira e na última, os peritos mal olharam pra mim. Deve existir alguma coisa no ar que faz com que as pessoas evitem o contato visual a todo custo.

E onde entra o chefe do Sr. Incrível nessa história?

No filme, Gilbert Huph é o diretor da seguradora onde o Sr. Incrível trabalha. O herói da história, ainda contaminado pelo desejo de fazer o bem, encontra brechas para conceder os benefícios para as pessoas e isso tira a felicidade do pequeno antagonista. Para ele, o importante é “ajudar o NOSSO pessoal” e o resto que se dane.

Por lá, vi um monte de Gilbert Huphs. Todos em busca de uma brecha para não conceder o benefício que, diga-se de passagem, é um direito meu. O que ouvi da perita na minha 2ª ida ao INSS foi que a doença existia (cêjura?), mas não era incapacitante. De fato, não é. Posso andar, falar e realizar a maioria das atividades normalmente, mas dá pra esconder a condição de um possível contratante? Não. E quem contrataria alguém que vai passar 15 dias afastada para a recuperação de uma cirurgia e talvez passe mais 30 com hipotireoidismo (e seus efeitos) 10 em isolamento? Rai ai…

Para fechar a história: finalmente me concederam o auxílio-doença. Também, né? Não tinha como ser diferente. Como dizer “não” para uma pessoa que foi operada há cinco dias e ainda está com os pontos no pescoço?

Por essas e outras é bom estar bem informado. Para isso, contarei com a ajuda da Cássia Montouto no próximo post. Ela é Assessora Jurídica do Instituto Oncoguia e editora do site Direito à Saúde.

Outros relatos – Daniela Freitas

Oiê! : )

Como falei no último post, dividir a questão trouxe à tona um montão de histórias de pessoas que já passaram pelo mesmo que eu. Há quem tenha enfrentado o câncer de tireóide há 25 anos, 10 anos, 02 anos, 01 ano. A minha caminhada mal começou, então achei interessante trazer os relatos daqueles que já passaram de fase e hoje estão bem.

Nossa primeira convidada é a Daniela Freitas. Ela é baiana, tem 26 anos e… e… bem, vamos deixar as apresentações e tudo mais com ela, né?    : )

guestpost

Olá. Chamo-me Daniela Freitas, sou baiana, engenheira eletricista e hoje estou com 26 anos. Fui convidada a contar um pouco a minha história e de como foi ter carcinoma papilífero aos 15 anos. Desde aquela época vivo em guerra com a balança, e foi por essa causa que minha mãe marcou uma consulta para mim com uma endocrinologista amiga da família (Dra. Patrícia Bacelar Viterbo, meu anjo até hoje). Consulta de rotina. Porém, enquanto ela estava examinando meu pescoço, detectou que alguma coisa estava errada. Depois de exames laboratoriais e ultrassom da tireoide, fui diagnosticada com hipertireoidismo (uma ironia, já que esse tipo de anomalia tem como sintoma perda de peso, e não ganho) e nódulo na tireoide. Como meu pai teve problema parecido, benigno, elegemos como causa fatores genéticos.

 Diagnosticado o nódulo (não lembro as dimensões), fui encaminhada para punção. O diagnóstico foi de nódulo benigno. Mesmo assim, minha médica indicou cirurgia para retirada do nódulo e de 70% da tireóide. Indicou também que procurasse o Dr. Jorge Bastos. Ele não era cirurgião de cabeça e pescoço, e sim cirurgião geral, e trabalhava com transplante de fígado e rins, porém tinha sido professor da minha médica e ela confiava nele. Como o plano cobria, nem procuramos outra opção.

 Fiz a cirurgia em março de 2002, no hospital Aliança, aqui em Salvador. A cirurgia transcorreu bem. Os inconvenientes eram evitar falar, como medida preventiva para proteger as cordas vocais, e o pós operatório. Como qualquer cirurgia, tive que ter alguns cuidados, como proteger para não abrir os pontos e ter uma higiene especial no local. Lembro que passei um tempo usando uma espuma triangular para dormir, pois ficava com medo de abrir os pontos a noite. A biópsia, que é feita no momento da cirurgia, continuou dando resultado benigno.

 Uma semana depois, retornei ao consultório do cirurgião para retirar os pontos e para levar o resultado da biópsia que tinha sido feita no restante do material que havia sido retirado. Não sei quem ficou mais sem chão, minha mãe ou o médico, ao verem que o resultado apontava de presença de material maligno nessa última biópsia. O meu nódulo de fato tinha sido benigno. Porém, havia uma formação maligna de menos de um centímetro escondida atrás desse nódulo. E a questão naquele momento era que ainda restavam 30% de tireoide no meu corpo, que deveriam ser retirados o quanto antes. Já sai do consultório com nova cirurgia marcada, não lembro bem se para o próximo dia ou o seguinte.

 Nessa noite minha mãe não dormiu, chorando. Porém, tentou o máximo que pôde se fazer de forte na minha frente. Eu, que na época era muito engajada no movimento espírita, estava (e estive ao longo de todo o processo) muito tranquila. Já tinha pesquisado e sabia que as chances de cura eram muito grandes. Além disso, se eu viesse a morrer, contrariando as estatísticas, não seriam um fim, e sim um novo começo. Sendo assim, era eu quem acalmava as pessoas e afirmava “vai dar tudo certo, sim”, e não o contrário. E eu só tinha 15 anos.

 Feita a segunda cirurgia, passei a parte complementar do tratamento. Tive que fazer iodoterapia para eliminar qualquer vestígio de célula cancerígena que pudesse ainda existir no meu corpo. Esse tratamento exige uma infraestrutura especial, pois usa material radioativo, e naquela época, em Salvador, apenas o Hospital Aristides Maltez – HAM estava apto a fazê-lo. O Hospital Português ainda estava construindo a unidade de iodoterapia, ou tinha construído a pouco tempo e ainda não aceitava o meu plano, não lembro ao certo. Porém, existia uma fila grande para conseguir vaga no HAM e, além disso, estávamos bastante resistentes em fazer um tratamento por lá devido a atmosfera hostil do local. Meu tratamento tinha sido muito tranquilo até então, e não queríamos entrar naquela vibe (quem conhece o HAM sabe do que estou falando).

Sendo assim, o como o meu plano tinha cobertura nacional, resolvemos fazer o tratamento em Brasília, no hospital onde uma prima minha era enfermeira chefe.

Entre a retirada da tireoide e a iodoterapia não se faz reposição hormonal. Com a tireoidectomia, mesmo quem tinha hipertireoidismo passa a ter hipotireoidismo. E sem a reposição todos os sintomas se manifestam. Nesse período fiquei muito prostrada. Dormia quase o dia todo. E lembro que até meu ciclo menstrual ficou confuso.

 Fiz a iodoterapia em junho de 2002, em plena copa do mundo de futebol. O procedimento foi muito simples. Foi nada mais, nada menos, que tomar poucos mililitros de um líquido transparente e sem gosto (iodo 131 – radioativo), e aguardar até que o nível de radiação no corpo decaia a níveis em que se possa conviver com outras pessoas sem atingi-las. Dessa forma, passei alguns dias em regime de isolamento. Fui colocada em um quarto especial, construído com paredes reforçadas, e não podia receber visitas, e nem mesmo ter contato com o corpo técnico do hospital. Depois do período no hospital, passei por mais 7 dias de “semi-isolamento”. Ou seja, pude sair de lá, mas as pessoas só podiam chegar a uma distância de 2 metros de mim. Depois disso, a vida voltou ao normal. Não pude assistir o Brasil ganhar o penta junto com minha família, porém, por outro lado, pude ir com eles ver o desfile da seleção na capital federal, já com a taça em mãos.

 Finalizado o tratamento, estava curada do câncer. Porém, já não tinha mais tireoide, uma glândula que quase não se ouve falar até se ter algum problema, mas que tem uma importância enorme para o funcionamento do organismo. Passei, então, a fazer reposição hormonal com Levoritoxina Sódica. Levaram-se alguns meses até que a minha endocrinologista conseguisse ajustar o nível certo de hormônio para mim. Essa dosagem é feita com base especialmente nos níveis de outros dois hormônios, o T4 e o TSH.

Nos 5 anos que se seguiram continuei fazendo anualmente um exame chamado cintilografia, que, usando contraste, rastreia vestígios da presença de células tireoidianas no organismo. É um exame que monitora uma possível metástase, que é muito improvável ocorrer no caso de câncer de tireóide. Depois disso, passei a me considerar definitivamente curada.

Aprendi que é muito importante fazer o acompanhamento frequente dos meus níveis hormonais, pois ficar com níveis incorretos pode trazer sintomas dos mais diversos, que vão da queda de cabelo a depressão. E uma alteração de peso, por exemplo, pode alterar as taxas hormonais. Por isso, retorno a cada 6 meses ao consultório da minha médica para verificar se está tudo “ok”.

A cura pela energia positiva

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Não tenho religião definida e alterno entre a crença e a descrença na vida após a morte, reencarnação e afins (mas tenho medo de aparições de espíritos. Vai entender!). Pesco um pouco de cada coisa e vou vivendo, acreditando que não devo fazer o mal e nem desejar o mal de ninguém, sob pena de receber tudo de volta, triplicado, num dia de chuva. Também procuro ter pensamento e atitudes positivas, mesmo que de vez em quando:

a) soe meio idiota
b) meu humor não colabore
c) todas as anteriores
d) N.D.A

Fiz essa introdução para chegar à pergunta que mais ouvi/li de amigos e conhecidos ao longo das semanas: “vc acredita em (insira aqui o nome de qualquer ritual ou prática)?”. E a resposta, repito: não tenho religião, mas acredito em tudo que possa trazer coisas boas. “Tudo que vier eu topo. Tudo que vier, vem bem”, já diziam Kleiton e Kledir. ♪♫

Espalhar o segredo trouxe um resultado mega-positivo. Em primeiro lugar, tirou um peso estranho e inexplicável que eu vinha sentindo. Em segundo lugar, foi ótimo receber mensagens de apoio (e de gente que eu nem esperava). Pode parecer besteira, mas ajuda muito! E o terceiro e talvez mais importante motivo: a boa vontade das pessoas.

Minha mãe comprou florais de Bach. Não vou citar todos os nomes, pois alguns podem não gostar, mas me foram sugeridos: cura à distância com Reiki, visitas a um centro espírita e messiânico, consulta com astróloga e tratamentos com aloe vera. Também ouvi muitas histórias do tipo “tenho uma amiga/conheço uma pessoa que teve* e hoje está bem” ou “tive tal coisa e sei como vc se sente”. É muita gente querendo ajudar e muitas vibrações positivas que acabam levando a gente lá pra cima (em cima, em cima, em cima… já dizia o Naldo. Ai, como eu tô musical! ♪♫ )! E é assim que tem que ser, né?

*Até então, me sentia “injustiçada”. Na academia, por duas vezes me peguei pensando coisas do tipo “seu idiota, vc está aí, fazendo quatro séries e usando esse aparelho para produzir músculos. Não é justo! Sai daí logo e me deixe fazer as minhas duas pq EU PRECISO estar com o corpo preparado” ou “você sabia que existem coisas mais importantes que malhar o bíceps? Vaza daí que EU PRECISO usar!”. Mas esse pensamento, além de ser um auto-sabotador, não era verdadeiro, uma vez que me sinto absolutamente normal. Se vitimizar é a pior coisa: dá espaço pro baixo astral se instalar e aí a doença toma conta mesmo. 

Lição para a vida: pare de pensar besteiras do tipo “não quero que as pessoas sintam pena de mim”. Se sentirem, vc não vai saber, mesmo… Eu já pensei assim e vi que o fardo fica muuito mais pesado. Se não for exposição demais para o seu coraçãozinho, divida a história com as pessoas. Ela pode ajudar ou inspirar alguém. : )

Prólogo – A descoberta

Nunca me importei com o passar dos anos. Quando tinha 12, queria ter 13. Quando tinha 17, queria ter 18. Quando tinha 26, no entanto, me peguei com a crise dos 27 e fiquei meio confusa por não entender os motivos que me levavam a querer frear o tempo.

ImageEm maio deste ano, tomada por uma sensação de “preciso começar a me mexer”, pensei em financiar um apartamento e deixá-lo alugado enquanto não chegava a hora de sair da casa da mãe. “Ahá! Sou madura e vou investir em imóveis”, pensei. Cheguei a ir olhar um apê e dar início às conversas quando… “BUM!”, alterações na empresa me fizeram entrar no aviso prévio.

Parem as máquinas! –  Negociações canceladas, precisava pensar no próximo passo. Sempre quis fazer intercâmbio e senti que era A HORA certa. Sem emprego, sem planos de casamento (isso não é uma indireta), sem filhos e com reservas financeiras suficientes para realizar um sonho sem incomodar ou depender da família. Mais uma vez, meu senso de urgência me fez conversar com agências e com um monte de pessoas que já tinham morado em Dublin, o destino escolhido. Pra melhorar: consegui uma bolsa de estudos em uma das melhores escolas da Irlanda e as passagens aéreas estavam em promoção. Tudo se encaixando, tudo dando certo. Muito certo!

Parece uma coincidência forjada, mas minha descoberta se deu justamente no dia em que eu estava prestes a comprar as passagens. Saí de casa para ir ao laboratório após olhar o site da KLM. “Na volta eu compro”. Opa, parece que não, hein!

Depois de muito pensar sobre quais pessoas saberiam, encontrei a resposta: TODO MUNDO DEVE SABER! “Pq, Savana? Vc é exibida? Vc gosta de se expor?”. Bem, durante as minhas pesquisas, encontrei muitos lamentos e pouca informação relevante, principalmente sobre Salvador e as formas de tratamento por aqui. Se fiz jornalismo e gosto de contar as histórias dos outros, pq não aproveitar o embalo para contar a minha, né?

Para o post inicial não ficar muito longo, terei que fazer uma segunda parte sobre o percurso que me levou ao diagnóstico mais assustador que um leigo pode ter: carcinoma papilífero. E agora?